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Solenidade da Anunciação

Solenidade da Anunciação. Deus, tendo enfim decretado enviar seu Filho a este mundo, podia fazê-lo de fato de quatro modos:

  1. Criar um corpo para este Filho, do mesmo modo como cria as almas;

  2. Formá-lo de uma matéria preexistente, semelhantemente como o corpo de Adão;

  3. Fazê-lo nascer por meio da união conjugal de um homem e uma mulher, como igualmente acontece com os homens.

  4. Fazê-lo nascer, milagrosamente, de uma Mãe Virgem.

Pois bem, Deus optou assim pela mais bela e extraordinária forma. 

“Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma Virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde Ela estava “… e disse: ‘Alegra-Te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’”. (Lc 1,26-28)

Podemos imaginar a cena. Em Nazaré, numa humilde casa, estava ajoelhada uma Virgem implorando ao Altíssimo que mandasse ao mundo o Salvador prometido.

Era jovem, bela, com todas as graças dos seus quinze anos, com todo amor de seu coração virgem, com todos os atrativos da sua santidade.

Portanto, o olhar de Deus estava fixo sobre aquela pureza suplicante e a prece que brotava desta alma cheia de graça, comovia o seu coração de Pai da humanidade.

Era chegada a hora da libertação! Gabriel, um dos arcanjos gloriosos, deixava o céu e descia à Terra trazendo a mensagem do Altíssimo. A mensagem era para aquela jovem de quinze anos, desconhecida do mundo, admirada pelos Anjos.

O arcanjo luminoso, sob forma humana, o semblante resplandecente, usava uma veste dourada como a aurora, que despontava ao longe. Numa atitude solene, como se convinha ao embaixador do Altíssimo, apresenta-se diante da Virgem em oração.

“Ave cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu, entre as mulheres.”

A virgem levanta a cabeça, perturbada ao ouvir esta saudação; não se perturba com a presença do anjo, porém, com tal saudação dirigida por um anjo a uma criatura mortal.

Há uma espécie de luta interior. O anjo, como enviado de Deus, quer elevar a virgem, para fazê-la entrar no caminho mais sublime, que pode existir, ser Mãe de Deus; e a virgem recolhe-se em sua humildade, esconde-se em seu nada. 

Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás ·e darás à luz um filho e lhe parás o nome de Jesus.

Maria, a virgem doravante gloriosa, cujo nome ecoará através do mundo, como um símbolo de paz e de ternura, não se perturba mais: compreende tudo. Passando acima dos sublimes destinos, que o anjo acaba de revelar-lhe e que não a deslumbram, ela se lembra de seu grande tesouro: a conservação da sua virgindade, que havia consagrado ao Senhor.

O anjo lhe anunciou que seria mãe, todavia, ela havia jurado a Deus conservar a sua virgindade; eis porque humilde pergunta brota de seus lábios virginais: como se fará isto, pois eu não conheço varão? Ela não duvida da onipotência divina, e sabe que Deus. pode conciliar estes dois extremos; mas como se fará isto?

A perplexidade.

Ela perguntou pelo caminho escolhido por Deus, para executar a sua obra. O Arcanjo inclina-se mais profundamente, e, fitando a sua futura Rainha, com. suprema veneração, explica: “O Espírito Santo virá sobre ti, e a Virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, e por isso o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.”

O mistério está então desvendado: Maria será Mãe e ficará Virgem!

Deus dá a Maria o direito de deliberar. Envia-lhe um anjo, não somente para revelar-lhe a grande obra, que o seu amor e seu poder querem executar, bem como para entrar em negociações com a criatura escolhida, mas livre.

Deus, todavia, espera a resposta. O mundo espera, o anjo espera.

São Bernardo chega a afirmar: “Em tuas mãos está o preço da nossa salvação. Se consentes, seremos imediatamente libertados. Todos fomos criados pelo Verbo eterno de Deus, mas agora vemo-nos condenados à morte: a tua breve resposta pode nos renovar e restituir à vida. Dá depressa, ó Virgem, a tua resposta. Responde sem demora ao Anjo, ou, para melhor dizer, ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra. Profere a tua palavra humana e concebe a divina. Diz uma palavra transitória e acolhe a Palavra eterna.”

Solenidade da Anunciação – Modelo de disposição a Vontade Divina

Maria, com um acento de inefável humildade, deposita nas mãos do Arcanjo as palavras da salvação: “Eis aqui a escrava do Senhor! faça-se em mim segundo a tua palavra!”

Estas palavras virginais de humildade e de obediência produziram nos mundos um frêmito desconhecido. O céu e a terra sentem-se comovidos, como dois irmãos que se encontram após uma longa separação!

Tendo recebido esta resposta, o anjo se inclina mais radiante que a aurora, que começa a dourar o perfil das colinas, e retira-se. Retira-se, para ceder o lugar ao Redentor, que desce.

O Verbo de Deus, seu próprio e único filho, tomou a forma de um corpo, do sangue puríssimo de Maria ! Era a Encarnação.

Esta encarnação compreendia duas coisas: A descida do Filho e a sua união verdadeira a nossa carne. A descida do Filho de Deus é descrita por São Dionísio: “O Fiat de Maria fez cair Deus em êxtase.”

O êxtase é um transporte suscitado pela visão de uma beleza atraente que fez um ser sair de si mesmo. Ora, a beleza da Virgem, a sua pureza e a sua humildade encantaram o Coração do Filho de Deus, fizeram-no sair de si e cair em êxtase no seio de Maria.

Oh! inefáveis mistérios! Prostremo-nos de joelhos, para agradecermos a Maria a vinda do Salvador, e exaltarmos a Virgem gloriosa, centro e instrumento destes grandes mistérios de salvação.

Oração do dia:

“Ó Deus, quisestes que vosso Verbo se fizesse homem no seio da Virgem Maria; dai-nos participar da divindade do nosso Redentor, que proclamamos verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por nosso Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”.


Na Solenidade da Anunciação, tomemos pois como exemplo a santa disposição de alma de Nossa Senhora na aceitação da vontade de Deus.

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